Quando a ideologia acadêmica atinge o fundo do poço, alguém no subsolo começa a cavar.
Irene Coslet, uma “historiadora feminista” formada pela London School of Economics, acaba de publicar o livro The Real Shakespeare: Emilia Bassano Willoughby, no qual defende, com a seriedade de quem anuncia uma descoberta científica, que William Shakespeare era, na verdade, uma mulher negra. Negra, judia e, naturalmente, silenciada pelo patriarcado branco europeu. A tese veio à autora, conforme ela mesma admitiu em entrevistas, por meio de um sonho. Sim, um sonho. O método científico, para essa nova casta de pesquisadores, consiste em adormecer e acordar com uma revelação.
O argumento de Coslet pode ser resumido em poucas linhas, porque não há muito o que resumir. Emilia Bassano, poetisa de ascendência veneziana e possivelmente judaica, que viveu na corte elizabetana, teria escrito toda a obra atribuída a Shakespeare sob pseudônimo masculino, pois mulheres não podiam publicar abertamente. A “prova” central? Anagramas. As letras de “Shakespeare” podem ser rearranjadas para formar “A She Speaker”. Se esse é o critério, com as letras de “Irene Coslet” é possível formar “Secret Lion”, o que faria dela, pelo mesmo método, um felino infiltrado na academia.
Andrew Doyle, autor britânico que leu os originais do livro antes da publicação, não escondeu a perplexidade. Suspeitou, a princípio, tratar-se de uma paródia. A escrita é precária, as evidências são inexistentes, e o tom oscila entre o messianismo e a autoajuda. Coslet refere-se a si mesma como “a Autora”, com maiúscula régia, e descreve seu método como um “paradigma correto”, comparável à revolução copernicana. Copérnico, ao menos, tinha um telescópio. Coslet tem um sonho e um lápis com o qual desenhou ela mesma o retrato da “verdadeira Shakespeare” como mulher negra, inserido no livro como se fosse documento histórico.
O caso seria cômico se fosse apenas um livro ruim perdido na vastidão da Amazon. Não é. A LSE, uma das universidades mais prestigiosas do mundo, publicou em seu blog oficial um texto da própria Coslet promovendo a tese. O Daily Mail, o New York Post, o Evening Standard e dezenas de outros veículos reproduziram a história com manchetes que tratam a alegação como se ela merecesse o benefício da dúvida. A máquina funciona assim: uma tese absurda ganha o selo de uma instituição respeitável, a imprensa amplifica sem pudor, e em seis meses haverá um documentário na Netflix com atriz premiada e trilha sonora melancólica.
Que Emilia Bassano existiu, ninguém nega. Ela foi, de fato, uma poetisa do período elizabetano e publicou Salve Deus Rex Judaeorum em 1611. Seu trabalho tem valor próprio e merece estudo. Mas quem compara uma página de Bassano com uma cena de Hamlet, com o monólogo de Próspero em A Tempestade ou com a descida ao inferno de Macbeth percebe, em três linhas, que se trata de talentos em ordens de grandeza distintas. Dizer que ambos são a mesma pessoa não é ousadia intelectual. É analfabetismo literário.
A questão de fundo, porém, é mais grave do que um livro ruim.
O que Coslet pratica tem um nome preciso: apropriação retrospectiva. Consiste em vasculhar o passado para reescrever biografias de acordo com as obsessões identitárias do presente. Se o maior escritor da língua inglesa for um homem branco de Stratford-upon-Avon, a narrativa não serve. O gênio precisa ser convertido numa figura que alimente a vitimologia contemporânea. A grandeza alheia, quando não pode ser igualada, deve ser sequestrada. É o ressentimento operando como método historiográfico.
Coslet não esconde o jogo. Em seu texto publicado no blog da LSE, ela apoia sua argumentação não em documentos de época, mas em Gayatri Chakravorty Spivak e Michel Foucault. O vocabulário é o de sempre: “Subalterno”, “Outro”, “paradigma eurocêntrico e patriarcal”. A tese não nasce de uma descoberta nos arquivos, mas de uma necessidade ideológica. Primeiro se decide a conclusão; depois se fabrica o caminho. É teologia sem Deus: a fé no dogma identitário antecede qualquer evidência.
Nicolás Gómez Dávila escreveu que “o progressista não perdoa à realidade o fato de não se ajustar aos seus sonhos”. A frase poderia ser a epígrafe do livro de Coslet, se a autora tivesse a honestidade de reconhecer o que faz. Porque o problema nunca foi Shakespeare. O problema é que Shakespeare existiu, que era quem era, e que escreveu o que escreveu. Para o militante acadêmico, a existência de um homem branco de classe média que produziu a maior obra literária do Ocidente é um escândalo intolerável. Não porque haja algo errado com o fato, mas porque o fato desobedece à cartilha.
A chamada “historiografia militante” não investiga. Ela infiltra, corrói e reescreve. Age como um fungo intelectual que se alimenta da grandeza alheia para dar aparência de vida a uma cultura que, por si mesma, já nasceu morta. É uma operação parasitária: incapaz de produzir um único soneto que se compare ao menor dos versos de Shakespeare, o ressentido acadêmico tenta dissolver o autor para redistribuir o mérito segundo critérios que nada têm a ver com talento, disciplina ou gênio.
Os sinais de que algo apodreceu nas universidades ocidentais não são novos, mas aceleram. Em 2018, três pesquisadores americanos, James Lindsay, Peter Boghossian e Helen Pluckrose, submeteram artigos deliberadamente fraudulentos a periódicos acadêmicos de estudos culturais. Um deles propunha que parques para cães são espaços de “cultura do estupro canino”. Foi aceito e publicado com elogios dos revisores. O escândalo, batizado de “Grievance Studies Affair”, demonstrou que vastas áreas do mundo acadêmico não operam mais por critérios de verdade, mas por conformidade ideológica. O livro de Coslet é filho legítimo desse mesmo ecossistema.
O que está em jogo não é uma questão de autoria literária. É a própria possibilidade de que fatos resistam à manipulação. Se Shakespeare pode ser transformado em mulher negra por decreto acadêmico, sem uma única evidência documental, então qualquer coisa pode ser qualquer coisa. A biologia é opinião. A cronologia é construção social. A realidade é um texto a ser “desconstruído” pelo primeiro militante com diploma e acesso a uma editora.
O mais triste, talvez, é que Emilia Bassano merecia destino melhor do que ser usada como fantasia de guerra cultural. Era uma mulher real, com uma obra real, que enfrentou dificuldades reais num mundo hostil a mulheres escritoras. Transformá-la num disfarce de Shakespeare não a honra. A diminui. Reduz sua identidade própria a um acessório da identidade alheia, exatamente o tipo de violência simbólica que as feministas dizem combater.
Mas a coerência nunca foi o forte dessa gente.
Shakespeare sobreviverá, como sobreviveu a quatro séculos de guerras, revoluções, censuras e modas intelectuais. Hamlet continuará sendo lido quando o livro de Coslet já tiver desaparecido no pó dos sebos, se é que chegará a algum sebo. O gênio é assim: imune à inveja dos pequenos. O que resta ao ressentido, ao fim de tudo, é o destino que ele próprio escolheu. Não o de criar, mas o de tentar destruir. E fracassar nisso também.




