Em março de 2026, imagens de satélite capturadas à noite mostraram Cuba como uma mancha escura no Caribe. Um buraco negro entre o brilho da Flórida e o cintilar do México. Dez milhões de cubanos ficaram sem energia elétrica por até 29 horas consecutivas. Apagões de quinze horas por dia tornaram-se rotina. Hospitais operando à luz de velas. Alimentos estragando por falta de refrigeração. Água sem bombeamento. É a mesma ilha que, em 1959, era chamada de “Chave do Golfo” e ostentava um dos mais altos padrões de vida da América Latina. O socialismo precisou de menos de uma geração para transformar a chave em cadeado.
A 145 quilômetros dali, do outro lado do Estreito da Flórida, Miami encerrou 2023 com um PIB de 192,8 bilhões de dólares, crescimento de 3,5%, e mais de três milhões de empregos. Uma só cidade americana produz mais riqueza do que toda a ilha de Cuba. Repita isso devagar, porque o dado é tão obsceno que parece inventado. Não é.
Quem acha que a comparação é injusta deveria lembrar o ponto de partida. Em 1958, Cuba ocupava a terceira posição em renda per capita na América Latina, atrás apenas da Venezuela e da Argentina. Tinha 45 aparelhos de televisão por mil habitantes, o quinto maior índice do mundo, atrás apenas de Mônaco, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Era segunda no continente em automóveis per capita e primeira em telefones. A taxa de alfabetização chegava a 76%, a mais alta da região. Havana tinha mais salas de cinema do que Nova York. Não se tratava de um país miserável salvo pela revolução, como reza a mitologia esquerdista. Tratava-se de um país em plena ascensão, assassinado por ela.
A pergunta que nenhum intelectual progressista responde com honestidade é simples: o que aconteceu?
Aconteceu Fidel Castro. Aconteceu a estatização completa da economia, a abolição da propriedade privada, a perseguição de empresários, profissionais liberais e dissidentes. Aconteceu a substituição do mercado pela burocracia e da liberdade pelo medo. Aconteceu o que sempre acontece quando um grupo de iluminados decide que sabe administrar a vida alheia melhor do que as próprias pessoas: o colapso.
O talento que Havana expulsou, Miami absorveu. Entre 1959 e 1962, cerca de 250 mil cubanos cruzaram o estreito. Médicos, engenheiros, empresários, professores, artistas. Gente que, em vez de esperar a ração do Estado, preferiu recomeçar do zero. E recomeçou. A comunidade cubano-americana tornou-se uma das mais prósperas dos Estados Unidos, transformando Miami de uma cidade turística de médio porte num polo financeiro, cultural e tecnológico de alcance global. O PIB do condado de Miami-Dade saltou para 260 bilhões de dólares em 2024. O êxodo cubano não empobreceu Miami. Enriqueceu-a. E empobreceu Cuba de forma irreversível.
Enquanto isso, a ilha segue sangrando. Mais de 530 mil cubanos migraram ilegalmente para os Estados Unidos somente entre 2022 e 2023, no maior êxodo desde a revolução. Não fogem do embargo americano, como repete o mantra oficial. Fogem da fome, dos racionamentos, da vigilância, da ausência de futuro. Fogem do mesmo motivo pelo qual se fugia da Alemanha Oriental, da União Soviética, do Camboja de Pol Pot. Ninguém constrói jangadas improvisadas para arriscar a vida em alto-mar por causa de um bloqueio comercial. Constrói porque do outro lado há algo que o socialismo nunca conseguiu oferecer: a chance de viver.
O que torna essa tragédia ainda mais perversa é a persistência da mentira. Sessenta e sete anos depois da revolução, a propaganda castrista continua vendendo a fantasia de que Cuba é vítima, nunca algoz de si mesma. E encontra compradores dispostos. No Brasil, a fascínio pela ilha caribenha atravessa gerações de intelectuais que jamais precisaram enfrentar uma fila de racionamento. Em março de 2026, quando imagens de satélite escancaram a escuridão literal de Cuba, o governo Lula articulou o envio discreto de 21 mil toneladas de alimentos e medicamentos à ilha, tratando o assunto, segundo a BBC, “com discrição para evitar politização”. Curioso: quando se trata de Cuba, a solidariedade precisa ser discreta. Quando se trata de criticar democracias imperfeitas, a estridência não tem limite.
Há uma simetria quase poética na geografia. De um lado do estreito, uma sociedade que, com todos os seus defeitos, permite que pessoas escolham onde morar, o que comprar, o que dizer e em quem votar. Do outro, uma sociedade onde o Estado decide tudo isso por você, e o resultado prático é um país que, em pleno século XXI, não consegue manter as luzes acesas. A diferença entre Miami e Havana não é climática, não é étnica, não é geográfica. É filosófica. É a diferença entre uma ordem social fundada na liberdade individual e uma ordem social fundada no controle coletivo.
Chesterton escreveu certa vez que o mundo está cheio de virtudes cristãs enlouquecidas, e a observação se aplica com perfeição ao socialismo cubano. A igualdade, virtude legítima quando subordinada à justiça, tornou-se em Havana uma igualdade na miséria. Todos são iguais porque todos são igualmente pobres, igualmente vigiados, igualmente impotentes diante do aparato estatal. A única exceção, como sempre, é a casta dirigente. Os Castros não passaram fome. Fidel morreu em 2016 com uma fortuna estimada pela Forbes em 900 milhões de dólares. A igualdade, como se vê, era para os outros.
O Brasil deveria olhar para o Estreito da Flórida como quem olha para um espelho. De um lado, o que acontece quando um país aposta na liberdade econômica, na segurança jurídica, na propriedade privada. Do outro, o que acontece quando se aposta no Estado como redentor universal. Não é teoria. Não é especulação ideológica. São duas cidades, separadas por 145 quilômetros de água, que partiram de condições semelhantes e chegaram a destinos diametralmente opostos. O experimento já foi feito. O resultado já foi dado.
Mas o Brasil, em vez de aprender a lição, prefere enviar toneladas de arroz e feijão para que o regime cubano sobreviva mais um pouco. Alimenta-se o paciente para que a doença não morra.





