Há derrotas que acontecem, e há derrotas que ensinam. A que Luiz Inácio sofreu entre a noite de quarta e a tarde de quinta pertence à segunda categoria. Em menos de vinte e quatro horas, o homem que se julga eterno levou duas bofetadas institucionais consecutivas: viu seu indicado ao Supremo, Jorge Messias, ser barrado no Senado pela primeira vez em cento e trinta e dois anos, e assistiu, no dia seguinte, o Congresso derrubar seu veto ao projeto da dosimetria por 49 a 24 entre os senadores e 318 a 144 entre os deputados.
Para se ter ideia do tamanho do tombo, a última vez que o Senado havia rejeitado uma indicação presidencial ao STF foi em 1894, governo de Floriano Peixoto, época em que o Brasil ainda discutia se trens a vapor eram coisa séria. Cinco indicados levaram não naquele ano, e depois, silêncio sepulcral por mais de um século. Até esta semana. Até Lula.
Messias era o melhor cenário possível para o governo. Tinha currículo, carreira jurídica extensa e o servilismo ideológico de praxe. Era, na cabeça do Planalto, indicação de banho-maria, daquelas que se aprovam no automático enquanto os senadores conferem o cardápio do almoço. Pois bem, nem o automático funcionou. A máquina engasgou, tossiu e cuspiu o nome fora.
O Senado não rejeitou Jorge Messias. O Senado rejeitou Lula usando Messias como cédula. O nome era o pretexto, o voto era a sentença. E o que essa cédula sussurrou, em sigilo, foi algo que nenhum cortesão ousa dizer em microfone aberto: o homem está acabado, e estamos calculando o custo de continuar fingindo que não está.
A alta casta política, esse organismo cuja única virtude é o faro apurado para identificar cadáveres antes do velório, simplesmente fez as contas. Olhou para a popularidade em queda livre, para a economia trôpega, para os escândalos do INSS empilhados como roupa suja, para as pesquisas de opinião, e concluiu o óbvio. Senador é como urubu, sente o cheiro do fim antes mesmo de o defunto perceber que está morto.
Pouco se comenta, mas é no sigilo da votação que mora a verdade. Vídeos virais, indignações de plantão e mobilização de internet têm seu papel, ninguém nega, mas senador não vota em pleitos secretos com olho na timeline. Vota com olho no espelho, na conjuntura e no telefone. E o telefone tocou. Tocou muito. A articulação conjunta de Davi Alcolumbre e senadores bolsonaristas trabalhou madrugada adentro, ligação por ligação, voto a voto. Some-se a isso a saturação geral de um establishment cansado de pagar o pato pelo desastre alheio, e o resultado vira aritmética simples.
Aqui cabe o reconhecimento que muitos puristas relutam em fazer. Quando Bolsonaro apoiou a eleição de Davi Alcolumbre para a presidência do Senado, choveram acusações de traição, de pragmatismo barato, de cooptação. Os profetas do oito ou oitenta, como sempre, preferiam a pureza estéril à vitória possível. Pois a história, mestra dos prudentes e algoz dos exaltados, deu sua resposta. Foi exatamente o trânsito construído com Alcolumbre que rendeu à direita acesso a comissões, espaço de manobra e, agora, esta derrota histórica imposta ao governo. Bolsonaro e Alcolumbre somaram forças por motivos distintos, e o que sobrou foi um cadáver político estendido no plenário com o nome de Jorge Messias na lápide.
Edmund Burke já avisava, há mais de dois séculos, que a política não é o reino dos princípios abstratos, mas a arte prudente do possível dentro do desejável. Quem confunde firmeza com rigidez, e princípio com birra, costuma terminar a vida discursando para paredes enquanto o adversário governa.
Vinte e quatro horas depois, veio a segunda pancada. A derrubada do veto à dosimetria não é a anistia que se sonhou nas ruas, e seria desonesto fingir o contrário. É outra coisa, talvez melhor do que muitos imaginam. É o primeiro tijolo retirado do muro que mantém presos políticos, em sua esmagadora maioria idosos, mulheres condenadas à revelia, gente humilde que entrou num ônibus sem saber direito o que iria encontrar do outro lado, dormindo longe de casa há anos.
O próprio Bolsonaro foi de uma humildade rara ao comentar: “Não é o ideal, mas saber que mais de 95% das pessoas presas, em sua maioria idosos condenados à revelia da lei, poderão voltar a dormir ao lado de seus familiares é algo que me deixa muito feliz.“
Frase de estadista, não de comentarista. Há uma diferença abissal entre quem carrega o peso real de famílias destroçadas e quem desfila pureza ideológica em podcast. Quando muitos ainda faziam chacota e gritavam que “anistia é uma ova”, Bolsonaro deu o aval para a dosimetria, segurou o nariz e assinou embaixo. E a aritmética da liberdade, num país com a Suprema Corte transformada em comitê político de ocasião, é esta: cada dia a menos de prisão para um senhor de setenta anos vale mais que mil discursos puros sobre justiça abstrata. Graças ao pragmatismo sustentado desde o início por poucas lideranças, noventa e cinco por cento das famílias podem reencontrar seus parentes.
Lula perdeu duplamente, mas a derrota da dosimetria pode doer ainda mais que a de Messias. Por quê? Porque na rejeição do indicado ao Supremo, o presidente pode culpar fofoca, lobby, articulação alheia. Mas na derrubada do veto, o que se evidenciou foi outra coisa: o Congresso preferiu libertar prisioneiros do oito de janeiro a obedecer ao Planalto. Traduzindo: deputados e senadores, sem votação secreta, na hora de escolher entre o palanque lulista e o eleitor da rua, escolheram o eleitor. E quem perde palanque perde tudo o que vem depois.
O quadro que se desenha é o de um governo em frangalhos. A inflação dos alimentos corrói a mesa do trabalhador. Os escândalos do INSS contra aposentados se acumulam num ritmo que envergonharia um governo militar de república de bananas. A verdadeira Abin paralela, o uso eleitoral da máquina, a gritaria contra antigos amigos da imprensa quando a imprensa ousa cumprir seu papel mínimo. No meio desse pântano, o presidente apela para discursos cada vez mais bélicos, como se gritar mais alto fosse antídoto para o esvaziamento do poder. Não é. Nunca foi.
Há quem diga, ainda, que Lula está apenas atravessando uma fase ruim, que vai se recompor, que tem cartas na manga. É possível. Mas o detalhe que estes analistas insistem em ignorar é que o lulismo nunca foi um projeto político de longo prazo. Foi um culto de personalidade construído sobre uma única figura humana, finita, envelhecida e cada vez mais incapaz de carregar nas costas o peso da própria mitologia.
A anistia segue sendo o objetivo. Não a anistia esmolada, mas a ampla, geral e irrestrita, aquela que devolve aos brasileiros não apenas a liberdade dos presos, mas a dignidade da nação que se recusa a manter seus filhos atrás das grades por terem caminhado até uma praça. Esse é o horizonte. A dosimetria é o aperitivo, não o banquete.
O Brasil que acompanhou as duas derrotas em vinte e quatro horas tem motivos concretos para erguer o copo. O aparato vermelho que parecia indestrutível em 2023 começa a se desmanchar à vista de todos. A queda do lulismo não será limpa, nem rápida, nem indolor. Mas começou. Vinte e quatro horas. Duas derrotas desmoralizantes. Um epitáfio em construção.




