O porto que já não é nosso

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Em 2023, diante das câmeras da imprensa internacional, Lula declarou com aquela solenidade de quem ensaia frente ao espelho: “Não vamos mais privatizar nenhuma empresa, não vamos vender patrimônio público para pagar dívida.” A frase era o refrão da campanha de 2022, quando a palavra “soberania” funcionava como amuleto eleitoral. O eleitor ouviu. O eleitor acreditou. O eleitor descobrirá, talvez tarde demais, que soberania, no vocabulário petista, é só um substantivo de palanque.

Três anos depois, o mesmo governo se desdobra para viabilizar o maior leilão portuário da história do país: o Tecon Santos 10, um megaterminal de contêineres que ampliará em 50% a capacidade do Porto de Santos. Investimentos obrigatórios de R$ 6,4 bilhões. Contrato de 25 anos. Lance mínimo de R$ 500 milhões. E entre os principais interessados, marchando com apetite que não se dá ao trabalho de disfarçar, a Cosco Shipping, estatal do Partido Comunista Chinês, que já controla 67% do Porto de Pireu na Grécia, opera 31 portos na América Latina e acaba de inaugurar o megaporto de Chancay, no Peru, com US$ 3,5 bilhões investidos.

Mas calma. Não é privatização. É “arrendamento”. Não é entrega. É “investimento estrangeiro”. Não é vassalagem. É “cooperação estratégica”. O truque semântico é sempre o primeiro andar da fraude.

Preste atenção nos números, porque eles não mentem com a mesma desenvoltura dos políticos. Um terço de todo o comércio exterior brasileiro passa por Santos. Quarenta por cento dos contêineres do país são movimentados ali. Em 2024, foram 5,4 milhões de contêineres, num porto que já opera no teto de sua capacidade instalada de 5,9 milhões. Quem controla Santos controla a jugular econômica do Brasil.

A engenharia política do caso merece atenção. O Tribunal de Contas da União, num raro espasmo de lucidez, estabeleceu restrições ao leilão: armadores que já operam em Santos ficariam impedidos de participar, como proteção contra a concentração de mercado. O ministro Bruno Dantas, relator do caso, argumentou que medidas cosméticas como multas e fiscalização posterior são inúteis num porto saturado e dominado por meia dúzia de grupos. Estava certo.

Mas a Cosco não aceitou o veredicto. A estatal de Pequim correu ao Cade com uma “manifestação técnica” contestando as recomendações do TCU. O argumento: “integração vertical” não prejudica automaticamente a concorrência. Traduzindo do juridiquês para o português: a China quer entrar no leilão e mandou avisar. O Planalto recebeu o recado com a presteza de um mordomo bem treinado. Por determinação direta, o governo passou a avaliar quatro ajustes no edital para, segundo a versão oficial, “estimular a concorrência”. Na prática, o que se faz é arrancar os trincos da porta que impediria a entrada chinesa.

E o ministro Silvio Costa Filho? Voou pessoalmente à China para fazer “reuniões bilaterais com gigantes da infraestrutura” chinesa. Quero que o leitor medite sobre esse fato por um instante. Quando foi a última vez que um ministro brasileiro embarcou num avião para facilitar a vida de uma empresa nacional? Quando foi a última vez que o Planalto se mobilizou com essa urgência para atender um empresário de Campinas ou de Joinville? A subserviência tem dessas coisas: ela reserva as passagens de primeira classe para quem vem de fora.

O próprio cônsul dos Estados Unidos em São Paulo, Kevin Murakami, alertou o governo de que uma estatal chinesa no comando de Santos poderia “comprometer a soberania brasileira”. Quando os americanos dizem isso, a esquerda descarta como imperialismo ianque, aquele reflexo pavloviano que dispensa o trabalho de pensar. Mas olhe os fatos: a China investiu em mais de 129 portos ao redor do mundo. Segundo o CSIS, centro de estudos estratégicos de Washington, empresas chinesas construíram ou operam 31 portos ativos na América Latina, 17 deles com participação majoritária, quase todos posicionados em rotas comerciais vitais. Isso não é investimento. É geopolítica. É tabuleiro de xadrez. E o Brasil está sendo jogado como peão.

O padrão se repete com a monotonia de um relógio suíço. A Cosco comprou Pireu em 2016, quando a Grécia agonizava em crise. Comprou Chancay quando o Peru precisava de dinheiro. E agora bate à porta de Santos no momento exato em que o governo brasileiro, sufocado por déficits e pela necessidade de exibir “grandes investimentos”, está disposto a vender a mobília para fingir que a casa vai bem.

É o método latino-americano por excelência: a esquerda sobe ao poder jurando soberania e independência. Uma vez instalada, abre as pernas para Pequim e chama isso de “cooperação Sul-Sul”. Os investimentos chegam embrulhados em discursos sobre “modernização” e “geração de empregos”. Quando o país acorda, descobre que seus portos, suas minas e suas rotas logísticas pertencem a estatais de uma ditadura que não precisa sequer fingir constrangimento.

A Venezuela entregou petróleo e infraestrutura a Cuba e à Rússia. A Argentina se afogou em dívidas com Pequim enquanto concedia a exploração de lítio. O Equador entregou direitos de pesca a frotas chinesas que devastaram suas águas. O Peru viu Chancay virar um enclave logístico chinês em solo peruano. O denominador comum é de uma obviedade que dói: em todos os casos, quem prometeu soberania entregou servidão. E em todos os casos, a entrega veio acompanhada de aplausos e coletivas de imprensa.

O edital do megaterminal de Santos continua, segundo a própria imprensa, “sob mistério”. Sem data definida, sem regras claras, com o governo oscilando entre as restrições do TCU e as exigências de Pequim. Essa indefinição não é incompetência, embora o governo tenha de sobra. É cálculo. Quando o edital vier, virá costurado sob medida. A narrativa já estará pronta: “é o maior investimento em infraestrutura da história”. Os jornais estamparão os bilhões na manchete. Os colunistas governistas repetirão “geração de empregos” até a frase perder o sentido. E ninguém perguntará o óbvio: quanto custa a soberania que se perde quando uma ditadura estrangeira passa a controlar o porto por onde escoa a riqueza do país?

Um país que entrega o controle de sua principal artéria comercial a uma potência estrangeira não é um país soberano. É um entreposto. É uma feitoria. Cada contêiner que sair de Santos sob bandeira chinesa será um lembrete silencioso de que a soberania prometida em 2022 não morreu. Nunca existiu. Era apenas o papel de presente em volta da caixa vazia que a esquerda vendeu como futuro.


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